Em 591 d.C., num domingo de Páscoa em Roma, o Papa Gregório I pronunciou um sermão que mudaria a história de uma mulher para os próximos 1.400 anos. Ao tratar de penitência e buscar um exemplo feminino, ele fundiu três mulheres distintas dos evangelhos numa única figura: Maria Madalena, que Jesus havia libertado de sete demônios; Maria de Betânia, irmã de Lázaro, que ungiu os pés de Jesus; e uma mulher sem nome em Lucas 7, descrita apenas como "pecadora conhecida na cidade".
A partir desse sermão, Maria Madalena, que em alguns textos apócrifos aparece como a "discipula mais amada" por Jesus, passou a ser associada à imagem de pecadora redimida ou mesmo prostituta. O problema é que nenhum versículo bíblico do cânon oficial qualifica Maria Madalena dessa maneira. São três personagens distintas em três textos distintos, e essa fusão foi atribuída à interpretação de Gregório I. Essa leitura perdurou por cerca de 1.379 anos.
Em 1969, o Papa Paulo VI removeu as referências que vinculavam Maria Madalena à mulher pecadora. Em 2016, o Papa Francisco elevou sua celebração ao nível de festa litúrgica, a mesma categoria dos Apóstolos, e a chamou pelo título que a Igreja Oriental sempre lhe dera: Apostola Apostolorum, a Apóstola dos Apóstolos. Ainda assim, a associação construída ao longo de séculos já estava profundamente enraizada na tradição e no imaginário coletivo.
Quem ela era, de fato
Os evangelhos canônicos são consistentes nesse ponto. Lucas 8:2 a introduz como “Maria Madalena, de quem haviam saído sete demônios”. A expressão "sete demônios", no contexto da época, era frequentemente associada a uma doença grave, física ou mental, da qual ela foi curada. Não há menção de pecado, de profissão ou de passado imoral. Ademais, ela fazia parte do grupo de mulheres que financiavam o movimento de Jesus com "seus próprios recursos", segundo o texto. Isso sugere que ela tinha recursos financeiros e, possivelmente, origem social elevada, o que lhe permitia apoiar materialmente o grupo.
Ela esteve presente na crucificação, quando a maioria dos discípulos fugiu; estava presente quando o corpo foi depositado no túmulo; foi ela quem encontrou o sepulcro vazio e quem anunciou a ressurreição aos demais discípulos. Por isso, alguns autores a consideram, simbolicamente, uma espécie de fundadora do Cristianismo.
Todos os quatro evangelhos canônicos, que divergem em inúmeros detalhes sobre a paixão e ressurreição, convergem neste ponto: Maria Madalena é apresentada como a primeira testemunha da ressurreição e a primeira a anunciar a notícia. Tomás de Aquino, no século XIII, chamou isso de Apostola Apostolorum. Apóstolo, em grego, significa "o enviado". Ela é descrita como a primeira enviada para anunciar a notícia central do cristianismo. Essa leitura não é uma reconstrução moderna: está apoiada no próprio texto.
O significado do nome dela
O nome semita era Miryam Magdala. Miryam tem raízes duplas: a egípcia myr, amada, e a hebraica yam, Deus. Uma possível leitura: "amada de Deus". Magdala é o nome de uma cidade na margem ocidental do mar da Galileia. Em hebraico, migdal significa torre, e torres eram, na arquitetura da Antiguidade, os pontos mais visíveis das cidades, os lugares de vigia, os símbolos de elevação e de guarda.
Comentaristas antigos que operavam com essa etimologia liam seu nome como "a Grande Torre" ou "a Guardiã". Há estudiosos que apontam para um possível jogo de palavras: a Torre que se sobressai diante dos apóstolos. Assinale-se que naquela época e cultura, os nomes eram descrições das pessoas. Saulo virou Paulo. Simão virou Pedro, a pedra. E Maria Madalena carregava num único nome a ideia de ser amada e de ser guardiã.
O que os textos não canônicos guardam
Em 1896, um papiro do século V foi comprado no Cairo. Escrito em copta, continha fragmentos de um texto intitulado Evangelho de Maria. Esse evangelho não estava entre os textos de Nag Hammadi de 1945, mas estes (Nag Hammadi) forneceram contexto para compreender o Evangelho de Maria. Juntos, textos gnósticos e apócrifos esboçam uma figura bastante diferente da imagem de prostituta redimida que a tradição ocidental consolidou.
No Evangelho de Filipe, descoberto em Nag Hammadi, há uma passagem que se tornou famosa: "O Senhor amava Maria mais que todos os discípulos". O texto usa a palavra grega koinônos para descrever a relação de Maria com Jesus, termo que pode significar companheira, parceira, associada, usado tanto para relações matrimoniais quanto para parcerias espirituais. O que permanece constante nesses textos é a posição central que ela ocupa no grupo de Jesus.
O Evangelho de Maria vai mais longe. Após a crucificação, enquanto os discípulos estão em colapso emocional, é Maria quem os conforta. Pedro lhe pede que compartilhe ensinamentos que Jesus lhe teria transmitido em particular. Ela o faz. E o texto registra uma disputa que muitos estudiosos consideram historicamente significativa: André e Pedro questionam se Jesus realmente ensinaria ensinamentos reservados a uma mulher, sem que os homens soubessem. A resposta no texto é: se o Mestre escolheu Maria Madalena, quem são vocês para questionar? Esse conflito entre Maria Madalena e Pedro, registrado em múltiplos textos apócrifos, não é uma invenção moderna: aparece em documentos do segundo e terceiro séculos. E não foi o único caso em que a narrativa oficial deixou de incorporar figuras e textos considerados incômodos, como exploramos em São João era a Pedra Angular Rejeitada?
Como ela foi de Apóstola dos Apóstolos a Pecadora Redimida
Textos que retratavam Maria Madalena como líder espiritual, em alguns casos com autoridade igual ou superior à dos apóstolos masculinos, não foram incluídos no Cânon Oficial. A interpretação proposta por Gregório I em 591 reforçou essa mudança de percepção: além de seus textos serem marginalizados, sua figura foi reinterpretada de maneira que atendia às estruturas patriarcais da época.
A estudiosa Karen King, da Universidade de Harvard, documentou como a tradição patrística frequentemente reduziu a influência de figuras femininas no movimento cristão primitivo. Textos mais antigos sugerem uma comunidade cristã com lideranças de ambos os sexos, diferente da predominância masculina que se consolidou posteriormente. A transformação de Maria Madalena em “prostituta redimida” funcionou como um mecanismo simbólico eficaz: ela permanecia na narrativa, mas não mais como figura de autoridade, e sim como exemplo de penitência. Assim, sua imagem deixou de inspirar mulheres como liderança espiritual e passou a ocupar um papel secundário.
O contexto histórico desse apagamento é mais complexo do que parece. Em 585 d.C., apenas quatro anos antes do sermão de Gregório I, o Concílio de Macon, na Borgonha, discutiu se as mulheres deveriam ser consideradas plenamente humanas, com almas. Registros históricos indicam que a decisão foi afirmativa, mas por margem estreita. Isso revela como certos setores da sociedade da época defendiam visões profundamente desumanizadoras sobre as mulheres.
Nesse contexto, a imagem de Maria Madalena como figura de autoridade representava um desafio para estruturas sociais e religiosas da época. É nesse cenário que surge a construção da “prostituta arrependida”. O modo como narrativas coletivas moldam identidades e apagam memórias é tema recorrente na psicologia analítica, como exploramos em Jung e o Autoconhecimento.
O que o reconhecimento de 2016 significou
Quando o Papa Francisco elevou a celebração de Maria Madalena ao nível de festa litúrgica em 2016, o decreto oficial utilizou explicitamente o título Apostolorum Apostola, rastreando o termo até Tomás de Aquino no século XIII. O que Tomás havia afirmado séculos antes foi reconhecido institucionalmente em 2016. Não se tratou de uma ruptura: Igrejas como a Católica Ortodoxa e a Copta nunca adotaram a narrativa ocidental da “prostituta” e sempre a honraram como portadora da ressurreição, com status equivalente ao dos Apóstolos.
Pela primeira vez desde 591, a interpretação de Gregório I foi formalmente revista não apenas pela academia, mas pela própria instituição que a havia difundido. Isso representou um avanço simbólico significativo para a valorização das mulheres na tradição cristã.
O que os textos dela dizem
No Evangelho de Maria, depois que Jesus ressuscitado se despede dos discípulos, há um ensinamento que resume o núcleo desses textos: “Porque é em vosso interior que está o Filho do Homem. Ide a ele: aqueles que em marcha o procuram o encontram.” Não é uma promessa externa de salvação, mas uma orientação de interioridade. O divino não está em outro lugar: está dentro de cada pessoa. A expressão “Filho do Homem” também pode ser traduzida como “Filho da Humanidade” ou “Filho de Adão”. Na leitura gnóstica, o termo carrega o sentido de Centelha Divina, a porção do divino que habita em cada ser humano.
Em outro fragmento do Evangelho de Maria, quando ela narra uma visão de Jesus, a resposta que recebe é: “Bem-aventurada és tu, Maria, que não te perturbas à minha vista. Onde está a chama divina do coração, aí está o tesouro.” Nous, a palavra usada para “coração” nessa passagem, é o termo grego para a faculdade mais alta da mente, o intelecto contemplativo, a centelha divina no ser humano. O tesouro está onde a chama está, e a chama está dentro. Esse é o ensinamento que Pedro e André resistem em aceitar vindo dela. Não por discordarem do conteúdo, mas porque a portadora da sabedoria era uma mulher, em um contexto em que mulheres tinham pouco valor social. Essa lógica de interioridade como caminho espiritual aparece também na tradição cabalística, como exploramos em Kabbalah e Neurociência.
Uma história que ainda não acabou
Maria Madalena foi apagada duas vezes: primeiro quando textos associados a ela foram marginalizados, depois quando sua imagem foi reinterpretada como a de uma “prostituta redimida”. E foi recuperada três vezes: a primeira com o reencontro do Evangelho de Maria, a segunda com a descoberta dos textos apócrifos em 1945, que dialogam com a tradição Ortodoxa, e a terceira quando, em 2016, sua importância foi oficialmente reconhecida.
O que permanece, depois de tudo isso, não é apenas a história de uma mulher do século I. É a demonstração de como narrativas são construídas, mantidas e, às vezes, revistas. De como aquilo que chamamos de “tradição” pode refletir escolhas feitas em contextos políticos específicos. E de como textos preservados por comunidades que os valorizavam podem sobreviver a séculos de esquecimento.
"Onde está a chama divina do coração, aí está o tesouro".
- Maria Madalena -
Referências
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King, K. L. (2003). The Gospel of Mary of Magdala: Jesus and the First Woman Apostle. Santa Rosa: Polebridge Press. ISBN: 978-0-944344-58-3
Schaberg, J. (2002). The Resurrection of Mary Magdalene: Legends, Apocrypha, and the Christian Testament. New York: Continuum. ISBN: 978-0826416452
Brock, A. G. (2003). Mary Magdalene, the First Apostle: The Struggle for Authority. Harvard Theological Studies 51. Cambridge: Harvard University Press. ISBN: 978-0674009660
Meyer, M. (Ed.). (2007). The Nag Hammadi Scriptures: The International Edition. New York: HarperOne. ISBN: 978-0-06-162600-5
Gregório I. (591 d.C.). Homilia 33 (In Evangelia). In: Patrologia Latina, 76, 1238–1239. Disponível em: https://www.documentacatholicaomnia.eu/20vs/104_migne_pl/1815-1875,_Migne,_Patrologia_Latina_033_(AD_1865),_MLT.pdf
Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. (2016). Decreto sobre a celebração litúrgica de Santa Maria Madalena no calendário romano geral (3 de junho de 2016). Vaticano. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20160610_sanctae-m-magdalenae-decretum_po.html
Leloup, J.-Y. (1998). O Evangelho de Maria. Petrópolis: Vozes. ISBN: 978-8532620392
Leloup, J.-Y. (2000). O Evangelho de Tomé. Petrópolis: Vozes. ISBN: 978-8532619266
Leia também
- São João era a Pedra Angular Rejeitada? — Outra narrativa suprimida pela história oficial: a tradição mandeia que coloca João Batista como o verdadeiro Messias.
- Jung e o Autoconhecimento — Como a psicologia analítica explica os mecanismos de projeção e apagamento de identidade coletiva.
- Kabbalah e Neurociência — O ensinamento do conhecimento interior como caminho espiritual, na tradição que Maria Madalena também habitava.