O Segredo de Satan

O adversário e o retorno ao Pai são faces do mesmo caminho? O hebraico antigo traz um segredo perturbador que querem manter escondido de você.

O Segredo de Satan

A palavra Satan pode trazer grandes reflexões e ensinamentos espirituais.

Em Hebraico, ela é escrita por שָׂטָן sendo um verbo que significa “obstruir, opor-se, colocar-se no caminho”. Quando é usada como substantivo passa a significar “o adversário, o opositor, aquele que apresenta resistência.”

Vamos imaginar que Satan seja um nome pessoal, tal qual, Rosa. Note que não devo colocar um artigo antes do nome, pois "Rosa" remete à pessoa, enquanto "a” rosa remete à flor. No Hebraico acontece o mesmo: Satan é um verbo e ha-Satán se transforma em "o adversário". Isso não é interpretação alternativa, é gramática.

O Hebraicista Henry Ansgar Kelly, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, dedicou décadas a rastrear todas as ocorrências do termo Satan nas Escrituras Sagradas. O estudo concluiu que não há nenhum ser maligno ou inimigo cósmico do Criador, mas uma “profissão” necessária, uma espécie de Promotor Público, cuja tarefa era questionar, testar e apresentar a acusação.

O Promotor de Jó

O Livro de Jó é o texto mais rico para entender o que ha-Satán realmente representa.

Nele está escrito que Os "filhos de Deus", os Seres Celestiais, se apresentam diante do Eterno, e entre esses seres está ha-Satán, o Opositor Celestial. Ele não está ali como intruso, mas como membro legítimo do Conselho Divino do Criador, com assento e voz. Desconsertante? Sim, mas piora.

Deus pergunta de onde ele vem. A resposta é a de um inspetor que tem como função percorrer a terra, observá-la: esse homem seria fiel se não tivesse nada a ganhar com isso? A pergunta de ha-Satán não é maldosa, mas uma dúvida que qualquer Promotor apresentaria a um Juiz antes de um julgamento. E Deus, no texto, permite que seja aplicado um teste em Jó.

O texto incomoda, porque coloca o "adversário" como instrumento dentro da Ordem Divina e não como alguém que disputa o Poder de Deus. Se o adversário pede permissão antes de agir e apenas age após a permissão ser dada, o que isso diz sobre a natureza de Satán? É um servidor ou inimigo?

O estudioso Jeffrey Burton Russell, em seu trabalho sobre a história do diabo, observa exatamente isso: o Satán do Antigo Testamento não é oponente de Deus, mas mero agente do Altíssimo. Ele pode ser comparado a um Professor que aplica provas para ver se os alunos estão aptos a seguirem adiante. Por isso, ele é um obstáculo momentâneo e necessário, mas sua função faz parte do progresso de cada aluno. Tem que passar na prova aplicada por ele.

Dois nomes, duas funções

Há um segundo problema que ainda não foi mencionado: quando os estudiosos gregos traduziram a Bíblia Hebraica, por volta do século III a.C., escolheram traduzir ha-Satán ao grego antigo como diábolos, διάβολος, e é daí que nasce a expressão "diabo" em Português. Mas ambas expressões são totalmente diversas, nunca foram sinônimas e trazem resultados finais divergentes.

Satan é o que obstrui, aplica a prova e coloca resistência no caminho, tudo para forçar um crescimento. Por outro lado, Diábolos significa “aquele que separa”, o que divide, caluniador e é “aquele que cria ruptura entre entre o humano e o divino”.

Quando as duas palavras foram unidas num só o conceito, o verdadeiro significado espiritual foi ocultado. Há quem diga que essa confusão foi deliberada para justificar a invenção de guerra entre o Bem contra Mal e outras narrativas que nunca existiram no Hebraico do antigo Testamento. Mas isso é outra história, sigamos.

O Diabo em muitas religiões cristãs, é visto como uma criatura que se opõe a Misericórdia Divina e coloca rigidez onde deveria haver compaixão. Esse ensinamento contém um enorme problema, pois Deus, que deveria ser o máximo da Misericórdia, passa a condenar seus filhos a um inferno eterno. Que Misericórdia haveria nisso? Como aceitar Deus tão ou mais rígido quanto o “Diábolos”? Eis o engodo criado com a tradução mal feita de ha-Satán por Diabolos.

A Tolerância e a Rigidez

Antes de continuar, é importante deixar claro que não estamos dizendo que qualquer julgamento é errado, pois do contrário Ética não existiria, nem saberíamos distinguir o certo do errado. O equívoco está em julgar o outro a partir do aprendizado pessoal, sermos nós a régua para a vida do outro. Aprendizados diferentes, exigem provas diferentes em momento diferentes.

A título de exemplo, ao analisar o outro sob uma régua de medida pessoal, cometeríamos o mesmo erro que tentar aplicar uma prova de matemática avançada a alguém que ainda está aprendendo a somar. Julgar o outro a partir de uma experiência que nunca foi dele é injusto, assim como o é julgar-se a si próprio pela experiência de outro, ou ainda, julgar-se por erros do passado com base nas experiências suas de hoje.

Mas porque as pessoas fazem isso? Simples, quando julgamos, reforçamos uma superioridade ilusória, a qual fortalece o egoismo em nós, que nada mais é que a mesma força que buscamos combater. Por isso, julgar o outro a partir das próprias experiências, além de injusto, é espiritualmente impreciso e fortalece o equívoco do egocentrismo em nós.

Pesquisas publicadas em periódicos como Frontiers in Psychology e Spirituality in Clinical Practice mostrou essa correlação, ou seja, que a rigidez interior retroalimenta o mal que o devoto religioso afirma combater. Em outras palavras: quanto mais eu sou rígido com o outro e afirmo que ele está errado, mais eu reforço a força maléfica de me achar superior, o que gera em mim mais rigidez interior e egocentrismo. Então, quanto mais radical a pessoa é, mais afastada do Divino ela estará.

A rigidez interior que você carrega serve ao seu crescimento, ou se tornou o peso daquilo que você mais condena no outro? É pra pensar.

Ensinam as Tradições Místicas que a Tolerância é um atributo de Almas cujo aprendizado despertou o Coração, tornando-o sensível ao Bem. A Tolerância consigo mesmo e com o outros é a maior arma para se combater a rigidez interior, transformando crenças limitantes e cegueira espiritual em empatia verdadeira.

Não é uma Tolerância de passar a mão na cabeça quando o outro erra, mas sim compreender que todos estamos em uma caminhada para melhorarmos interna e externamente e que tudo são experiências para a Alma de cada um, mesmo que isso provoque dor, o que também faz parte do caminho.

Existe uma ironia que o Hebraico guarda em silêncio: a palavra que foi usada durante séculos para nomear o Mal contém em si ensinamentos profundos para que nos tornemos pessoas melhores. Um coração sensível ao bem não é aquele que nunca encontrou ha-Satán algumas vezes no caminho, mas, sim, aquele que o encontrou, foi testado e saiu do outro lado transformado para melhor; mais humano e menos rígido para consigo mesmo e para com os demais: Sabedoria.

Alexandre Chagas
CRF-SP 107.221

Eliana Matthos
CRTH-BR 11.012

Referências

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Kelly, H. A. (2006). Satan: A Biography. Cambridge University Press.

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