Você conhece a história de João Batista, ou acredita que a conhece. Mas existe outra versão histórica dele, igualmente com dois mil anos e com livro sagrado. São João tem adeptos a uma religião discreta, com menos de 100 mil membros e que sobreviveu até os dias de hoje. E eles ensinam algo que vai contra tudo o que você aprendeu desde criança: para eles, João não veio como emissário de Jesus. Era Jesus o discípulo do verdadeiro Messias. Sim! Para eles, João era o Unigênito.
Os Últimos Gnósticos
Eles se chamam Mandeus. Em árabe, seus vizinhos os chamam subbā, os que se imergem, os batistas. Vivem há séculos no sul do Iraque e no Irã, às margens dos rios, porque a água corrente é o centro de tudo que praticam. São, segundo os estudiosos, os únicos gnósticos da Antiguidade que sobreviveram como religião viva até hoje. E possuem uma memória que raramente aparece nos manuais tradicionais de história das religiões.
O nome da religião vem da palavra aramaica manda, que significa conhecimento interior. Em grego é chamada de gnosis. Eles são os gnósticos que ninguém discute na escola, nos seminários teológicos, nas igrejas ou círculos espirituais ou filosóficos. O livro que eles seguem é possivelmente tão ou mais antigo que as versões gregas que o Cristianismo segue.
Para os Mandeus, João Batista, chamado por eles de Yahia-Yohanna, não é um precursor. É o grande mestre. O enviado da Luz. O transmissor da religião verdadeira e incorrupta que vem de Adão. E Jesus, nos textos mandeus, aparece como um discípulo que recebeu os ensinamentos sagrados e deu seguimento a obra de seu mestre, São João.
O Livro de João, uma das escrituras sagradas dos Mandeus, contém sermões e ensinamentos atribuídos a João Batista. O Ginza Rba, o Grande Tesouro, o texto mais importante de toda a tradição mandeia, descreve figuras celestes que confrontam Jesus, mostrando ser ele um mero discípulo do mestre.
O que a narrativa vencedora não conta
Preciso fazer uma parada aqui, porque o que vem a seguir não é especulação, mas material histórico discutido em círculos acadêmicos especializados. O historiador americano James F. McGrath, da Butler University, foi um dos acadêmicos envolvidos na tradução do Livro Mandeu de João para o inglês. Em seus trabalhos, ele observa algo que muitos historiadores do Novo Testamento compartilham, mas raramente dizem em voz alta: há evidências históricas sólidas de que Jesus de Nazaré foi, antes de iniciar seu próprio movimento, discípulo de João Batista.
O batismo de Jesus por João, narrado nos próprios Evangelhos, é um problema teológico sério para a cristologia cristã. Por que o Filho de Deus precisaria ser batizado por um humano? A solução encontrada pelos evangelistas foi progressivamente minimizar o significado do gesto. Mas o gesto está lá. E ele coloca os dois personagens numa relação de mestre (João) e aprendiz (Jesus) que a tradição cristã passou séculos tentando reconfigurar. Os Mandeus guardam a versão anterior a essa reconfiguração.
Depois da morte de João, segundo a tradição mandeia, alguns de seus discípulos continuaram fiéis ao mestre. Fugiram de Jerusalém após a crucificação de Jesus, em parte para escapar das perseguições romanas, e foram para o sul, para a Mesopotâmia. Ali, às margens do Tigre e do Eufrates, preservaram os rituais, o idioma, os textos. Preservaram a memória de quem eles acreditavam ser o verdadeiro portador da luz, e mantiveram os ensinamentos intactos por dois mil anos.
Por que João foi decapitado?
Os Evangelhos contam a história de forma dramática: a dança de Salomé, o banquete de Herodes Antipas, o juramento irresponsável, a cabeça de João numa bandeja de prata. É uma cena que combina poder, desejo e crueldade, e ficou gravada na memória cristã com a força de um mito.
Mas Flávio Josefo, o historiador judeu do século I que não tinha nenhum interesse teológico em proteger ou atacar a reputação de João, conta uma história diferente nas Antiguidades Judaicas. Para Josefo, a razão da morte de João não foi moral. Foi política. Herodes Antipas temia que a enorme influência de João sobre o povo se tornasse o catalisador de uma insurreição. João não era apenas um pregador de beira de rio. Era uma figura com poder de mobilização real, capaz de mover multidões. E num território ocupado por Roma, com um governante que dependia da estabilidade para manter seu posto, um homem do povo com esse poder era uma ameaça existencial.
Não foi Salomé, nem a dança. O medo era o de um líder que estava se tornando grande demais para ser ignorado. E aqui está a pergunta que os Mandeus fazem silenciosamente há dois mil anos: se João era apenas um coadjuvante como narram os Evangelhos Cristãos, por que o mataram com tanta urgência? Coadjuvantes não assustam governantes. Líderes assustam. Messias assustam. Herodes matou João pelo mesmo motivo que Roma mataria Jesus pouco depois: porque ambos tinham ao redor de si o tipo de lealdade que os impérios reconhecem como perigosa.
O que essa religião prega
Para entender o que os Mandeus creem, é preciso deixar de lado as categorias que o Ocidente cristão construiu ao longo de séculos. Não existe, no Mandeísmo, a ideia de pecado original no sentido cristão. Não existe a noção de que o corpo é fonte de impureza ou que o mundo material é maligno. Não existe o celibato como virtude, nem a renúncia ao casamento, nem a ideia de que o sofrimento tem valor espiritual. Os Mandeus se casam. Têm filhos. Celebram a vida física como parte da jornada.
O centro de tudo é a água, símbolo do Amor e da Luz. Todo domingo, homens e mulheres vestidos de branco se reúnem às margens dos rios para o masbuta, o batismo. Não como rito de passagem único, mas como prática contínua de purificação e renovação. Cada imersão é um retorno simbólico ao Mundo da Luz, a origem de tudo que existe.
O universo, na cosmologia mandeia, é dividido entre esse Mundo da Luz e um Mundo das Trevas. O Deus supremo é descrito como "a grande primeira Vida dos mundos da luz, o sublime que permanece acima de todos os mundos". O mundo material foi criado por uma entidade inferior, o Ptahil, equivalente ao Demiurgo gnóstico: não necessariamente maligno, mas limitado, imperfeito, distante da fonte. Na cosmologia mandeia, a alma humana é descrita como uma centelha da Luz aprisionada nessa matéria imperfeita. A morte não é punição. É libertação: uma jornada ascendente pelos reinos da luz, com o conhecimento correto como passaporte.
E o conhecimento que liberta não é fé cega. É manda, é Gnose; é Compreensão direta e interior vivenciada. João foi o transmissor desse conhecimento, não através de dogmas a serem acreditados, mas de rituais a serem praticados e de uma ética a ser encarnada. O Ginza Rba contém passagens como: "Se você vir alguém com fome, alimente-o; se você vir alguém com sede, dê-lhe de beber." E: "Dê esmola aos pobres. Quando você der, não ateste." Frases que soam familiares a qualquer cristão. Porque, segundo os Mandeus, foram ditas antes. Jesus apenas as repetiu, como todo discípulo repete o mestre.
A pedra angular e o problema da memória
"A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular." Essa frase está nos Salmos. Foi citada por Jesus nos Evangelhos. É usada há séculos como metáfora do marginalizado que se revela essencial, do descartado que se torna central para a construção da obra.
Mas existe uma ironia histórica que ninguém costuma nomear. E se a própria tradição cristã, que usa essa metáfora, for também, em algum sentido, os construtores que rejeitaram a pedra angular?
Os Mandeus não têm poder político. Nunca tiveram. São uma minoria que sobreviveu às margens de três impérios diferentes, ao Islã, ao regime Baath, à invasão americana de 2003, a qual reduziu sua população no Iraque de 70 mil para menos de 5 mil em menos de uma década. Estão espalhados agora pela Suécia, pela Austrália, pelos Estados Unidos, tentando manter viva uma tradição que a maioria do mundo nunca ouviu mencionar.
A história é sempre escrita pelos vencedores. O Novo Testamento foi escrito por seguidores de Jesus, muito maiores em número e em poder. O que os cristãos aprenderam foi filtrado pela lente do Vaticano e das igrejas ao longo de séculos. Mas os Mandeus dizem que guardaram a versão histórica não filtrada. Historicamente, a versão deles é uma das mais antigas, similar a dos textos cristãos.
Uma pergunta que fica aberta
Não estamos dizendo que os Mandeus estão certos. Não estamos dizendo que o Cristianismo está errado. Estamos dizendo que existem duas versões muito antigas de uma história que você precisava conhecer. Ambas têm dois mil anos de continuidade viva, cada qual com seu livro sagrado e uma memória preservada às custas de perseguição constante.
A versão que você conhece foi escrita, editada, canonizada e defendida por uma instituição que, nesse processo, descartou deliberadamente tudo que não cabia na narrativa que ela mesma escolheu construir.
O conteúdo aqui trazido é outra pedra angular para ser estudada, digerida e debatida. Esse é um momento oportuno para analisar a própria jornada com um olhar mais amplo.
Agora é o momento de parar para um café.
Veja mais:
Referências Utilizadas nesse artigo
Pereira, R. H. de S. (2009). A questão da origem dos Mandeus, os últimos gnósticos. REVER: Revista de Estudos da Religião, 9(2). PUC-SP. Disponível em: https://www.pucsp.br/rever/rv2_2009/i_pereira.pdf
Häberl, C. G., & McGrath, J. F. (2019). The Mandaean Book of John: Critical Edition, Translation, and Commentary. De Gruyter. ISBN: 978-3110486513
Drower, E. S. (1937). The Mandaeans of Iraq and Iran. Oxford: Clarendon Press. Disponível em: https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.83117
Lupieri, E. (2002). The Mandaeans: The Last Gnostics. Grand Rapids: Eerdmans. ISBN: 978-0802833501
Josefo, Flávio. Antiguidades Judaicas, XVIII, 5:2. Tradução e edição crítica: Feldman, L. H. Loeb Classical Library, no. 433. Harvard University Press, 1965. ISBN: 978-0674994775
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Yamauchi, E. (1970). Gnostic Ethics and Mandaean Origins. Cambridge: Harvard University Press. ISBN: 978-0196269238
Meier, J. P. (1994). A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus, Vol. 2: Mentor, Message, and Miracles. Doubleday. ISBN: 978-0385469920